2019

Histórias do Cinema

Um passeio pelo cinema francês com dois protagonistas: Agnès Varda e Jean-Luc Godard

Um observatório, lugar de onde se observa a história a desenrolar-se perante os nossos olhos, e o cinema, como máquina que permite deslocamentos no tempo, através da qual percorremos a espiral complexa das suas histórias. Pelo caminho, estabelecemos ligações, como Jean-Luc Godard em O Livro de Imagem: no final, planos da dança e da síncope de um dos protagonistas de O Prazer de Max Ophüls tomam conta do ecrã. Silêncio. Na quarta edição do Close-Up, uma festa de clássicos intemporais do grande cinema francês, com centro na Nouvelle Vague e raio para trás e para diante. Em foco, a geração pioneira e as obras-primas do século passado, os grandes mestres que criaram cinema em tempos heróicos e as matrizes cujos ecos persistem no imaginário cinéfilo, modelos fundamentais para a nova vaga de cineastas, referências do futuro. Amantes das imagens em movimento que, alimentados por uma espécie de inquietação cultural, renovaram a experiência cinematográfica - ideia de Antoine de Baecque - com um novo poder estético, liberdade e irreverência do olhar. Uma secção inspirada nas descontinuidades de O Acossado de Jean-Luc Godard: o tempo indeterminado, um novo tipo de percepção e uma sensação de outra realidade. Ou como escreveu João Bénard da Costa em Agnès Varda: os filmes e as fotografias: quando mais o tempo passa – tempo do filme e tempo sobre o filme – mais o coração se nos aperta e mais a sombra ganha à luz, a morte à vida, a tristeza à alegria, a infelicidade à felicidade. (C.C.)

Varda por Agnès

de Agnès Varda
12-10 18h00
(PA)
Presença de Inês Lourenço e João Catalão
Varda par Agnès (França, documentário, 2019, 115 min) M/12

Um documentário imprevisível de uma fascinante contadora de histórias e uma das protagonistas da Nouvelle Vague. A cineasta Agnès Varda expõe seus processos de criação, atribuindo um enfoque especial no método que ela denomina de cine-escrita, uma espécie de fórmula utilizada por ela na grande maioria de seus documentários e ficções, revisando a sua carreira de maneira única e emocionante, neste filme que encerra a sua carreira de 64 anos.

Duas Horas na Vida de uma Mulher

de Agnès Varda
14-10 14h30
(Universidade do Minho, no Instituto de Letras e Ciências Humanas - GAPS)
Cléo de 5 à 7 (França, ficção, 1962, 85 min) M/12

"Cléo de 5 à 7" é um dos melhores filmes de Agnès Varda, e certamente um dos que melhor exprime um "espírito Nouvelle Vague"; de resto as deambulações parisienses da sua personagem principal não deixam de evocar "À Bout de Souffle", como se Cléo fosse um contraponto feminino ao filme de Godard (que, por sua vez, aparece num curioso "filme no filme").

O Acossado

de Jean-Luc Godard
15-10 10h00
(GA)
sessão para escolas (3.º ciclo, secundário e audiovisuais)
À Bout de Souffle (França, ficção, 1959, 85 min) M/12

Ao lado de "Les 400 Coups", o outro grande "filme-símbolo'' da Nouvelle Vague, e também o primeiro sinal de que, como escreveu Serge Daney, este novo cinema não só não se contentava em sacudir o "antigo" como ameaçava, literalmente, destrui-lo. "À Bout de Souffle" é um dos filmes que melhor ilustra as consequências práticas e teóricas dos postulados da Nouvelle Vague, fazendo "explodir" o cinema para depois o reinventar. A primeira longa-metragem de Godard resultava, por si mesma, num nos momentos mais decisivos de toda a história do cinema.

Dois Homens em Manhattan

de Jean-Pierre Melville
15-10 18h30
(PA)
Presença de Luís Urbano e Pedro Oliveira
Deux Hommes Dans Manhattan (França, ficção, 1959, 80 min) M/12

Moreau, um jornalista francês residente em Nova Iorque, é enviado para investigar o misterioso desaparecimento de Fevre-Berthier, um diplomata francês das Nações Unidas. Dispondo apenas de uma pista (uma fotografia de três mulheres), ele recruta Pierre Delmas para o ajudar, um fotógrafo cínico e alcoólico. Uma homenagem de Melville à estética do film noir, naquela que é considerada uma obra-prima do policial.

Pedro, o Louco

de Jean-Luc Godard
16-10 21h30
(PA)
Presença de Paulo Mendes e Pedro Oliveira
Pierrot le Fou (França, ficção, 1965, 105 min) M/12

Desesperadamente romântico, iconoclasta e solitário, "Pedro, o Louco" impõe-se como a obra-súmula de toda a primeira fase da obra de Jean-Luc Godard. Um homem (Jean-Paul Belmondo) abandona mulher e filhos para fugir com uma desconhecida (Anna Karina) pela França fora. Mais do que nunca, é um filme voraz e em êxtase, que parece disponível para integrar tudo e onde é impossível prever o plano seguinte. Mosaico de formas e cores (o azul da tinta no rosto de Belmondo contra o vermelho do dinamite) pronto a explodir, assombrado por um magma sonoro polifónico e musical, o lirismo extremo de "Pedro, o Louco" remete para o mais persistente tema godardiano: o desejo e a impossibilidade da formação de um par. Um homem e uma mulher, o céu e o mar à volta deles, o cinema como frágil utopia para unir todas as matérias.

Mur Murs

de Agnès Varda
17-10 10h00
(GA)
Presença de Tânia Leão
sessão para escolas (3.º ciclo, secundário)
(França/EUA, documentário, 1981, 65 min) M/12

Mur Murs é um documentário sobre os murais em Los Angeles. Quem os pinta…? Quem olha para eles…? Quem os paga…? Como é que a capital do cinema se revela sem ilusões através dos seus muros murmurantes. Quem fala? As pessoas de Los Angeles. A quem? A uma curiosa realizadora francesa.

Veneno

de Sacha Guitry
17-10 15h00
(ACE - Escola de Artes de Famalicão)
La Poison (França, ficção, 1951, 80 min) M/12

Depois das perseguições injustas que Guitry sofreu no fim da Segunda Guerra (foi preso por algum tempo, sem nunca ter culpa formada), uma certa amargura e um certo cinismo vieram colorir quase todos os seus filmes, tomando o lugar dos jogos com a representação e da elegância que caracterizam grande parte da sua obra. E La Poison é certamente um dos filmes mais negros e cáusticos do seu período final, realçado pela interpretação de um dos seus actores predilectos, Michel Simon. Trata-se da história de um homem que consegue ludibriar um advogado de modo a assassinar a mulher e ser absolvido. Diante deste filme, é difícil não pensar na famosa frase de Guitry à sua mulher, na festa do seu último casamento: "Ah, estas mãos, que hão de fechar os meus olhos e abrir as minhas gavetas!".

O Prazer

de Max Ophüls
17-10 18h30
(PA)
Presença de Carlos Nogueira e Vasco Câmara
Le Plaisir (França, ficção, 1951, 95 min) M/12

Três histórias sobre prazer. Um homem esconde a sua idade atrás de uma máscara para poder ir a bailes e engatar mulheres – prazer e juventude. Madame Tellier leva as suas raparigas (prostitutas) à comunhão da sua sobrinha no campo – prazer e pureza. Jean é um pintor que se apaixona pelo seu modelo – prazer e morte. Esta obra-prima de Ophuls divide-se em três episódios baseados em contos de Maupassant. Moral da história: "O prazer não é alegre".

Olhos sem Rosto

de Georges Franju
18-10 21h30
(PA)
Presença de Carlos Natálio e João Monteiro
Les Yeux Sans Visage (França, ficção, 1960, 90 min) M/12

Um dos melhores filmes fantásticos franceses. Franju recupera o espírito dos grandes filmes em episódios de Feuillade e a sombria poesia dos filmes mudos de Fritz Lang, numa história de horror aparentada com o tema de Frankenstein. Um médico famoso atrai uma série de raparigas para as matar, de forma a aproveitar a pele dos rostos para reconstituir o da filha, desfigurada num acidente. O final é marcado por um onirismo surrealizante, raras vezes visto em cinema.

Fim de Semana no Ascensor

de Louis Malle
19-10 15h00
(PA)
Presença de Filipe Raposo
Ascenseur Pour L'échafaud (França, ficção, 1958, 90 min) M/12

Um casal de amantes decide matar o marido dela. O elevador onde se encontra o homem após cometer o crime, fica parado, provocando uma cadeia de acontecimentos que levará a um final inesperado. Depois das colaborações com Jacques Cousteau, "Ascenseur Pour L''échafaud" foi a estreia de Louis Malle na longa--metragem de ficção. Uma estreia coroada de sucesso, a que não faltou a atribuição do Prémio Louis Delluc. Através de uma intriga policial desenvolvida em ambientes "à americana" (para o que muito contribui a música de Miles Davis), Malle deixava aqui a certeza de que o "novo cinema" estava prestes a chegar.