Histórias do Cinema

Há uma sensação inata de que entendemos o tempo, passa por nós e avança, o que aconteceu ontem não acontece hoje, do nascimento até à morte, a vida. Entre muitas outras coisas, Luis Buñuel sempre se sentiu atraído pela repetição das coisas, como os convidados que entram num hall enquanto um anfitrião chama o mordomo, cena que vemos repetida por duas vezes em O Anjo Exterminador. Ao longo do filme, várias outras dessas coisas acontecem e voltam a acontecer para enfim se revelarem, uma constante na obra do realizador, como um corpo que gravita em torno de uma ideia de regularidade, do eterno retorno a lugares já conhecidos.

Em Susana encontramos a encarnação do amour fou e da subversão, reverberações de A Idade de Ouro, história de um amor de ímpeto irresistível, impossível neste mundo, um homem e uma mulher que nunca poderão estar juntos. Archibaldo de la Cruz tenta assassinar mulheres que acabam por morrer sem a sua intervenção, o seu desejo é uma obsessão impossível de concretizar em Ensaio de Um Crime. A obsessão de Francisco por Glória em Él é uma espécie de repetição interiorizada de A Idade de Ouro, uma ideia de André Bazin, que Buñuel não achou inverosímil notando apenas que a inspiração terá sido guiada inconscientemente.

No quinto episódio do Close-Up, relembramos o lugar central de um cineasta ímpar na história do cinema. Em foco, os anos mexicanos, o seu período mais pujante - entre 1946 e 1964, de Gran Casino a Simão do Deserto, realizou 20 filmes com rodagens entre os 18 e os 24 dias, meios reduzidos e salários a condizer - quase sempre a partir de modelos da produção de matriz hollywoodesca. O melodrama e o policial, géneros transformados em exercícios de admirável construção dramática, engenhosidade na narrativa e ousadia na manipulação do tempo. Entre contracções e dilatações, capazes de objetivar e distorcer a percepção, encontramos o cinema de Buñuel. Os clarões acendem-se, um mundo é formado. ¡Que viva Buñuel! (HRP)

Ele

de Luis Buñuel

Dia 11-10 15h00 (PA)
El (México, ficção, 1952, 90 min) M/12
Com a presença de Inês Lourenço e Pedro Mexia

Um dos grandes filmes de Buñuel. Uma genial mistura de religião e perversão que o realizador enche de símbolos e fetiches que materializam as fixações e a paranóia da personagem. Buñuel foi buscar um dos símbolos do "macho" do melodrama mexicano, Arturo de Córdova, transformando-o num impotente, paranoicamente ciumento. “Ele” conta a história de uma obsessão de forma irónica, transformando alguns dados do melodrama em irrisão. Uma obra-prima indiscutível.

O Anjo Exterminador

de Luis Buñuel

Dia 13-10 21h30 (PA)
El Ángel Exterminador (México, ficção, 1962, 95 min) M/12
Com a presença de António Olaio e Paulo Mendes

Depois de um jantar de cerimónia, um grupo de respeitáveis burgueses fica retido em casa de um deles. Por uma razão qualquer, só os criados conseguem atravessar a porta da sala de jantar. Depressa se resignam ao enclausuramento e, pouco a pouco, vão-se submetendo a uma promiscuidade completamente estranha aos seus hábitos. O ambiente deteriora-se e a selvajaria aparece. "A melhor explicação para "O Anjo Exterminador" é que, racionalmente, não tem nenhuma". Assim "explica" Luis Buñuel a sua obra prima e o penúltimo filme que dirigiu no México, fábula feroz sobre a burguesia presa dos seus conceitos, preconceitos e ideias feitas.

Ensaio de um Crime

de Luis Buñuel

Dia 16-10 21h30 (PA)
Ensayo de un Crimen (México, ficção, 1955, 90 min) M/12
Com a presença de António Gonçalves e Ricardo Vieira Lisboa

Um dos melhores filmes mexicanos de Luis Buñuel, variação sobre o crime percorrida por todas as obsessões do realizador. Uma obra-prima do humor negro, sobre um homem de aparência plácida e respeitável a quem um traumatismo de infância "empurra" para o crime, tentando assassinar as mulheres onde projecta as suas frustrações e desejos. Elas morrem todas mas... por acidente. Destaque-se a "aparição" de um objecto, a caixa, que aqui é de música e que o protagonista julga realizar os seus desejos, que mais tarde terá um sentido mais enigmático em "Bela de Dia".

100% Camurça

de Quentin Dupieux

Dia 16-10 23h30 (PA)
Le Daim (França, ficção, 2019, 75 min) M/12
Com a presença de Ricardo Vieira Lisboa

Georges, recentemente divorciado, sente uma enorme dificuldade em adaptar-se à nova vida. A enfrentar uma espécie de crise existencial, esforça-se por ultrapassar a angústia que teima em não passar. Um dia, compra um casaco de camurça numa loja em segunda mão. O que vem a descobrir assim que o veste é que esse casaco concede estranhos poderes ao seu proprietário. Obcecado com a nova peça de vestuário, Georges muda radicalmente a forma de ver e sentir o mundo. Com Jean Dujardin e Adèle Haenel nos principais papéis, uma comédia de terror escrita e realizada pelo francês Quentin Dupieux, depois de "Rubber - Pneu" (2010), "Wrong" (2012), "Réalité" (2014) e "Au poste!" (2018).

Susana

de Luis Buñuel

Dia 17-10 14h30 (PA)
Susana, Demonio y Carne (México, ficção, 1950, 80 min) M/12
Com a presença de Carlota Gonçalves

Num dos filmes vanguardistas mais famosos de sempre, "O Cão Andaluz", Buñuel e Dali materializam a sua imagem do desejo masculino e as suas diferentes fases edipianas. "Susana", uma das obras mexicanas de Buñuel, é um dos seus mais delirantes filmes, talvez o primeiro em que se manifesta a sua capacidade de filmar fielmente um melodrama e ao mesmo tempo subvertê-lo completamente. Susana foge de uma prisão numa noite de tempestade e vai tomar o lugar de um "anjo exterminador" numa grande propriedade rural onde se refugia, despertando a paixão de todos os homens da casa e lançando pai contra filho.