Fantasia Lusitana

Basil da Cunha

O cinema de Basil da Cunha habita as sombras, com a esperança de chegar à luz. Os seus filmes são, até certo ponto, reflexões sobre (e com) a luz. Naquilo que ela tem de fenómeno puramente físico (o realizador delicia-se com personagens que caminham pela noite, ou em interiores escuros, alumiadas por candeias, luzes giratórias ou chamas), mas também em tudo o que a luz carrega enquanto símbolo (a sombra como sinal do alheamento e da exclusão social, a luz como forma de expansão e afirmação individual e coletiva).

Daí que que esse "caminho para a luz" que, em parte, caracteriza o arco narrativo de muitos dos seus filmes, não seja tanto uma forma de redenção das personagens (que não eram más, nem se tornaram boas - a moralidade não lhe interessa realmente), antes uma forma de dar visibilidade. A iluminação em cinema, segundo o olhar de Basil da Cunha, é tanto um procedimento técnico da direção de fotografia, como uma plataforma de reconhecimento público dos desapossados. Dar luz (nos dois sentidos da expressão, o literal e o figurado) às personagens, que se confundem com as pessoas que lhes dão corpo, é um ato de generosidade - e eis que se encontra o adjetivo que melhor caracteriza o cinema deste realizador português nascido suíço.

E se generosas são as relações que se estabelecem entre o cineasta e a comunidade da Reboleira onde tem trabalhado, são-no também as formas, elas mesmas, dos seus filmes (isto é, a sua relação com o espetador). Basil da Cunha explora, regularmente, os limites dos géneros cinematográficos, com um especial gosto pelo cinema fantástico e pela "fábula proletária" que desemboca no thriller policial. O resultado: um cinema entre o realismo social e o filme de ação, entre o olhar observacional e a potência da ficção, entre o retrato e o sonho (ou seja, entre a luz e a sombra). (RVL)

Nuvem

de Basil da Cunha

Dia 21-10 21h45 (PA)
Presença de Basil da Cunha e Ricardo Vieira Lisboa
(Portugal, ficção, 2011, 30 min) M/12

Nuvem, rapaz com particular queda pela deambulação e o devaneio, vive no centro do bairro da lata crioulo de Lisboa. Nesse bairro com ares de pátio dos milagres, onde se cruzam velhos pescadores desdentados e rappers, tomam-no pelo tolo da aldeia. Com pouca inclinação para o trabalho, gosta da companhia dos cães e dos palhaços. Perante a indiferença da empregada de bar pela qual está apaixonado e o desdém dos seus pares, Nuvem vira-se para a busca do misterioso peixe-lua.

Até ver a Luz

de Basil da Cunha

Dia 21-10 21h45 (PA)
Presença de Basil da Cunha e Ricardo Vieira Lisboa
(Suiça/Portugal, ficção, 2013, 95 min) M/16

Nascido e criado no Bairro da Reboleira, na Amadora, Sombra já foi condenado e preso por vários delitos. Hoje, acabado de sair da prisão, regressa à sua vida normal como "dealer", numa tentativa de reintegração no implacável grupo de amigos. Porém, apesar do esforço, está consciente que é um marginal dentro da própria marginalidade do bairro. Por tudo isso, sabe que o seu destino será ser sempre julgado não apenas por aquilo que fez mas, acima de tudo, por aquilo que é. Com argumento e realização do luso-suíço Basil da Cunha, marca a terceira participação do jovem realizador no prestigiado Festival de Cinema de Cannes (depois das curtas "Nuvem", em 2011, e "Os vivos também choram", em 2012), onde o filme teve a sua estreia mundial.

Masterclasse

por Basil da Cunha

Sessão para escolas (alunos de audiovisuais e multimédia)
Dia 22-10 10h00 (OFICINA)
Presença de Basil da Cunha
(120 min)

Suíço de origem portuguesa, Basil da Cunha nasceu em 1985. Realizou várias curtas-metragens de forma autodidacta e ingressou no Departamento de Cinema / Cinéma du réel da HEAD - Genebra em 2007. A partir de 2011 as suas curtas-metragens "Nuvem" e "Os Vivos Também Choram" são seleccionadas para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes arrecadando esta última a menção especial do Prémio Illy. Em 2013 estreia "Até Ver a Luz" a sua primeira longa-metragem. A sua segunda longa-metragem, "O Fim do Mundo" (2019), foi seleccionada pelo Festival de Locarno e premiada no Indie Lisboa, entre outros festivais nacionais e internacionais.

Os Vivos Também Choram

de Basil da Cunha

Sessão para escolas (alunos de audiovisuais e multimédia)
Dia 22-10 10h00 (OFICINA)
Presença de Basil da Cunha
(Portugal, ficção, 2012, 30 min) M/12

Zé, 50 anos, trabalha no porto de Lisboa. Olha com inveja para os navios nos quais nunca poderá viajar. Sonha ir embora, deixar a mulher, o bairro onde vivem juntos. Há muito tempo que poupa discretamente para viajar para a Suécia. Já sabe qual é o barco no qual irá embarcar, a hora e a data da partida. Fala no seu desejo aos que o rodeiam, em particular ao seu colega, um ucraniano mudo, o único que não goza com as suas ideias malucas. Mas um dia, ao voltar do trabalho, Zé descobre que a mulher lhe roubou as poupanças para comprar uma máquina de lavar a roupa toda moderna.

Nuvem Negra

de Basil da Cunha

Sessão para escolas (alunos de audiovisuais e multimédia)
Dia 22-10 10h00 (OFICINA)
Presença de Basil da Cunha
(Portugal, ficção, 2014, 14 min) M/12

O mundo do bairro da Reboleira está a chegar ao fim. O projeto de uma autoestrada está a ameaçar esta pequena aldeia no coração de Lisboa. Alternando fragmentos de documentário sobre a história do local com narrativas contadas pelos vários habitantes, o filme capta um modo de vida vulnerável, em perigo de desaparecimento iminente.

A Côté

de Basil da Cunha

Dia 23-10 18h00 (PA)
Presença de Basil da Cunha e Maria do Carmo Piçarra
(Portugal, ficção, 2009, 25 min) M/12

Serguei é um trabalhador dos caminhos de ferro, aparentemente bem disposto e afável. Mas na intimidade do seu apartamento sombrio, vive uma terrível solidão que tenta compensar vendo comédias na televisão. Quando a TV se avaria, ele tenta arranjá-la, mas acaba ouvindo um casal que discute no apartamento do lado. Levado por um fascínio crescente com a voz da mulher, começa a partilhar, em segunda-mão, o quotidiano da vizinha até ao dia em que decide cruzar a porta...

O Fim do Mundo

de Basil da Cunha

Dia 23-10 18h00 (PA)
Presença de Basil da Cunha e Maria do Carmo Piçarra
(Suiça/Portugal, ficção, 2019, 105 min) M/16

Spira, de 18 anos, passou os últimos oito a cumprir pena numa casa de correcção. Agora, quase homem feito, regressa ao bairro da Reboleira, Amadora, onde vive a família. Parentes e amigos, contentes com o seu regresso, fazem questão que que se sinta em casa. Ao contrário de Kikas, um dos mais influentes traficantes do bairro, que considera Spira uma ameaça e que vai fazer de tudo para que ele não seja aceite. Seleccionado para competir no Festival de Locarno (Suíça), um filme dramático escrito e realizado pelo luso-suíço Basil da Cunha ("Até Ver a Luz") que, na edição de 2020 do Festival IndieLisboa arrecadou os prémios Melhor Longa-Metragem Portuguesa e Árvore da Vida.