Paisagens Temáticas

Cinema Comunidade

A comunidade, como um lugar onde se reúnem pessoas, o próprio acto de reunir como uma qualidade daquilo que lhes é comum, o cinema. Em observação nesta 6.ª edição do Close-up, uma arqueologia dessa pertença, como referia Deleuze, "o ecrã funciona como uma membrana cerebral, «uma membrana polarizada», onde tudo se conecta imediatamente". No programa, documentários, ficções e outros assim-assim, e muitos lugares onde vivem indivíduos e personagens agremiadas. Na civilização da imagem procuram-se rituais de visionamento em comunidade. Como dizia Manuela Serra aos seus actores, "Começem".

Começamos com "66 Cinemas" de Philipp Hartmann, uma análise aos vestígios das pequenas salas de cinema alemãs em diálogo com programadores e técnicos, suas lutas e nostálgias. Depois, em "O Movimento das Coisas" de Manuela Serra, iremos estabelecer contacto com uma comunidade rural do norte português em (trans)figuração após a revolução dos cravos. Aproveitando a estadia no pós-25 de Abril, "Prazer, Camaradas!" de José Filipe Costa, uma comunidade passada recordada no presente por personagens interpretados por eles mesmo, no momento da sua chegada às cooperativas de Aveiras de Cima para viverem a revolução em direto.

Em antestreia, "Operário Amador" de Ramon de los Santos, um documentário sobre a comunidade responsável pela formação do Teatro Construção em Joane, no período revolucionário e, em "Surdina", a ficção de uma comunidade geriátrica vimaranense da autoria de Rodrigo Areias. "A Nossa Terra, o Nosso Altar" de André Guiomar testemunha a morosa desfiguração da comunidade do bairro social do Aleixo, o premiado "Minari" de Lee Isaac Chung traz-nos um olhar sobre uma família de imigrantes sul-coreanos e o seu desejo de fazer parte dessa grande comunidade fantasiada chamada de "sonho americano". Por fim, corpos e máquinas em colisão, o humano e o tecnológico ligados numa comunidade clandestina, o mundo sem futuro de J. G. Ballard ampliado pela lente de David Cronenberg em "Crash". (CC)

66 Cinemas

de Philipp Hartmann

Dia 16-10 15h00 (PA)
Presença de Gonçalo Oliveira e Carlos Natálio
66 Kinos (Alemanha, documentário, 2016, 95 min) M/12

Depois da ronda de exibições do seu filme "O Tempo Voa Como Um Leão Que Ruge" (2013) em 66 cinemas e cine teatros alemães, o realizador Philipp Hartmann quis realizar este documentário. Em diálogo com operadores de cinema e diretores de programação, o autor reflecte sobre as dificuldades e lutas diárias com que as pequenas salas independentes se deparam para sobreviver, num contexto de grande massificação da indústria cinematográfica.

O Movimento das Coisas

de Manuela Serra

Dia 17-10 15h00 (PA)
Presença de Daniel Pereira e Melanie Pereira
(Portugal, documentário, 1985, 85 min) M/12

"O Movimento das Coisas" é um dos filmes mais curiosos que nas décadas de setenta e oitenta abordaram o universo rural do norte português, estabelecido na comunidade de Lanheses, no concelho de Viana do Castelo. Começado a desenvolver no interior da Cooperativa VirVer, em cujos projetos Manuela Serra trabalhou durante vários anos, só seria concluído algum tempo depois e apesar de premiado no Festival de Mannheim, na Alemanha, e depois em Portugal, no Festróia, o filme só agora chegou ao circuito comercial português.

Sessão especial

O Céu por Cima de Cá

de Companhia de Música Teatral

Dia 17-10 17h30 (GA)
(70 min)

A parceria da Companhia de Música Teatral (CMT) com o Município de V. N. Famalicão tem sido construída praticamente desde o início da CMT e da Casa das Artes. E isso tem permitido o desenvolvimento regular de "constelações artístico-educativas", um modelo de trabalho que procura articular a criação e fruição artística, a formação e educação, o envolvimento da comunidade, a reflexão e comunicação de processos e resultados. Ao longo dos últimos anos as questões ambientais têm estado no centro de alguns dos trabalhos desenvolvidos pela CMT em V. N. Famalicão (por exemplo com NOAH, Metamorfose e Gamelão de Porcelana e Cristal) e tornou-se cada vez mais evidente que a criação artística pode ter um papel muito importante na consciencialização das pessoas, deixando inquietações, promovendo a sensibilidade, o desejo de fazer algo pela Terra que nos foi dado habitar. O ano de 2020 foi marcado por uma reviravolta dramática na "ordem das coisas": um dos mais elementares "organismos" existentes no Planeta transformou profundamente a forma como vivemos (e morremos) e pôs à prova a vontade, engenho, determinação, imaginação e criatividade de toda a espécie humana. Tornou-se evidente a fragilidade da nossa existência, a necessidade de cooperarmos e de construirmos laços. No meio da crise pandémica a Casa das Artes lançou o desafio de construir uma Cidade Orizuro. Para a CMT uma Cidade Orizuro é o lugar imaginário onde podemos reunir todos os sonhos. Onde arte e educação são caminhos para se habitar uma terra cheia de verde. Onde das mãos nascem pássaros e um desejo comum: construir um mundo melhor. Foi dentro deste enquadramento que surgiu a criação O Céu Por Cima de Cá, uma obra que se vai transformando conforme a identidade e o céu de cada lugar. O registo em vídeo e em livro desta "memória sensível" é uma forma de perpetuar no tempo e de fazer crescer no espaço a experiência efémera mas real e profunda que aconteceu em 2020 em Vila nova de Famalicão. A Cidade Orizuro continua, assim, em construção.

Antestreia

Operário Amador

de Ramon de los Santos

Dia 19-10 18h30 (GA)
Presença de Ramon De Los Santos e Sérgio Agostinho
(Portugal, documentário, 2021, 90 min) M/12

Este será um filme que documenta a "viagem" de Sérgio Agostinho ao terreno humano que viu germinar a sua paixão pelo Teatro. Este terreno é formado pela memória do seu pai – Faria Martins – e por mais alguns operários têxteis que na década de 70 tiveram a ideia de fundar uma companhia de teatro em Joane: O Teatro Construção. Na década de 80 veio a ser uma referência, sobretudo devido ao Festival de Teatro Construção, um dos maiores festivais de Teatro da região norte, na época. Um documentário sobre certa origem do Teatro: Um grupo de operários têxteis decide, nos anos 70, formar uma companhia de teatro.

Minari

de Lee Isaac Chung

Dia 19-10 21h45 (PA)
Presença de Daniela Rôla
Minari (EUA, ficção, 2020, 115 min) M/12

Década de 1980. David, de sete anos, muda-se com os pais, imigrantes sul-coreanos, para uma zona rural do Arkansas. A vida ali é difícil e os pais arriscam todas as poupanças ao tentar criar uma quinta em solo inexplorado. Perante tanta imprevisibilidade, será a chegada da avó Soonja, uma pessoa muito peculiar, a ajudar David a adaptar-se àquele lugar. Um drama semibiográfico sobre o "sonho americano", escrito e realizado pelo americano de ascendência coreana Lee Isaac Chung. Estreado no Festival de Cinema de Sundance, onde recebeu o Grande Prémio do Júri e o Prémio do Público, foi o vencedor do Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro e recebeu seis nomeações para os Óscares.

Prazer, Camaradas!

de José Filipe Costa

Sessão para escolas (alunos do secundário)
Dia 20-10 18h30 (PA)
Presença de José Filipe Costa e Ana Isabel Strindberg
(Portugal, documentário, 2021, 105 min) M/12

Em 1975, no Portugal pós-revolução de Abril, uma mulher e dois homens — Eduarda Rosa, João Azevedo e Mick Geer — viajam da Europa do Norte para trabalharem nas cooperativas das herdades ocupadas no Ribatejo. Como muitos outros, ajudam nas actividades rurais e pecuárias, dão consultas médicas, aulas de planeamento familiar, mostram filmes de educação sexual e participam nos bailes tradicionais. Estreado no Festival de Locarno, o filme junta histórias e comunidades portuguesas no pós-25 de Abril de 1974, contadas por portugueses e estrangeiros que as viveram.

Surdina

de Rodrigo Areias

Sessão para escolas (alunos do 3º ciclo e secundário)
Dia 21-10 10h00 (GA)
Presença de Rodrigo Areias e António Durães
(Portugal, ficção, 2019, 75 min) M/12

Escrita por Valter Hugo Mãe, esta comédia de Rodrigo Areias centra-se no dia-a-dia de Isaque, um viúvo de alguma idade que não consegue ultrapassar a morte da mulher. Foi rodado e passa-se todo em Guimarães, terra do escritor e do realizador, responsável pelo "western" "Estrada de Palha". Tem no elenco António Durães e Ana Bustorff e a música original está a cargo de Tó Trips, metade dos Dead Combo.

A Nossa Terra, O Nosso Altar

de André Guiomar

Dia 22-10 18h30 (PA)
Presença de André Guiomar
(Portugal, documentário, 2020, 75 min) M/12

O filme testemunha as últimas rotinas no quotidiano do bairro social do Aleixo, marcadas pela tensão de um destino forçado. Entre a queda da primeira e da última torre, o processo de demolição arrasta-se durante anos, deixando as vidas dos moradores em suspenso. Obrigados a aceitar o fim da sua comunidade, assistem de forma impotente à lenta desfiguração do seu passado.

Crash

de David Cronenberg

Dia 22-10 23h30 (PA)
Presença de Luís Mestre
Crash (Canadá/França/Grã-Bretanha, ficção, 1996, 95 min) M/18

Um dos maiores êxitos da carreira de David Cronenberg e, também, um dos seus filmes mais controversos e polémicos. Adaptado do romance de J.G. Ballard, "Crash" é um filme demencial sobre o uma comunidade fascinada pelo sexo e pela morte sobre rodas. Trata-se de uma macabra visão sobre a combinação entre erotismo e mutilação, autodestruição calculada e desejo sexual, morte violenta e acidentes rodoviários. Premido em Cannes, será exibido com cópia restaurada que celebra o 25.º aniversário da sua estreia.