A edição 11 do CLOSE-UP – Observatório de Cinema – decorrerá de 10 a 17 de Outubro, em vários espaços da Casa das Artes de Famalicão e do Teatro Narciso Ferreira. Nas sessões de abertura e fecho e na passagem pelo Teatro Narciso Ferreira, o Close-up mostra propostas de cruzamento entre as imagens em movimento e a música, em três cine-concertos em estreia, em resposta a encomendas da Casa das Artes de Famalicão: a Berlim do final dos anos 1920, em Gente ao Domingo, por JP Simões; uma viagem musical proporcionada pelos Club Makumba em diálogo com Zombie, uma das obras-primas de Jacques Tourneur, instalado nas Caraíbas; e Samuel Úria seduzido por Yasujiro Ozu, pelas histórias de pais e filhos, em História de um Proprietário Rural, no Japão do pós segunda guerra mundial.
A programação integral do Close-up será revelada pela Casa das Artes no início de Setembro. O programa promoverá o encontro entre a história do cinema, representada pela Comédia à Italiana, e a produção do presente que incluirá a retrospectiva de uma produtora portuguesa, reveladora de um conjunto de realizadores emergentes. Nas cerca de 30 sessões, distribuídas por vários panoramas, haverá sessões especiais, filmes comentados, mesas-redondas, um vasto programa para escolas e propostas para famílias, incluindo oficinas e masterclasses.
JP SIMÕES – GENTE AO DOMINGO, de Robert Siodmak e Edgar G. Ulmer – cine-concerto
10 de Outubro (21h45, Casa das Artes de Famalicão)
Rodado com atores amadores, segue as vidas de um punhado de berlinenses ao longo de uma sucessão de domingos. A despreocupação e o lazer contrastam com as sombras perfiladas no horizonte, num filme que é um extraordinário documento sobre a “vida normal” na Berlim do final da década de vinte, uma obra seminal realizada no espírito da República de Weimar que influenciaria gerações de cineastas em todo o mundo. Gente ao Domingo, é o célebre filme cooperativo que revelou uma série de nomes de que a história do cinema iria guardar boa memória: Robert Siodmak, Edgar G. Ulmer e o aqui guionista Billy Wilder. JP Simões apresentará em estreia uma nova banda sonora.
Título Original: Menschen am Sonntag (Alemanha, ficção, 1930, 70 min)
Classificação: M/12
JP Simões nasceu em Coimbra. Vive em Lisboa. Estudou Comunicação Social, Direito da Comunicação, Escrita de Argumento, História do Teatro, Saxofone, língua Árabe e é mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa. É cantor, compositor e letrista, com bastante e diversa música editada, com os Pop dell’Arte, Belle Chase Hotel, Quinteto Tati e a solo como JP Simões e Bloom. Escreveu para teatro e cinema e é ocasionalmente actor, como toda a gente. Publicou um livro de contos e um dos libretos das duas óperas que já produziu. Ganhou alguns prémios, mas o importante é participar.
CLUB MAKUMBA – ZOMBIE, de Jacques Tourneur – cine-concerto
14 de Outubro (21h00, Teatro Narciso Ferreira)
Verdadeira obra-prima, o segundo filme de Tourneur para o produtor Val Lewton é um modelo de sugestão de terror. O tratamento fotográfico, jogando com as sombras e os medos que estas potencialmente despertam, é uma peça chave na construção da atmosfera de Zombie. Nas Caraíbas, uma enfermeira é encarregada de velar por uma mulher com uma estranha doença que a transforma em Zombie, e acaba, a pouco e pouco, por participar em estranhos rituais. Os Club Makumba apresentarão em estreia uma nova banda sonora.
Título Original: I Walked With a Zombie Zombie (EUA, ficção, 1943, 65 min)
Classificação: M/12
O cine-concerto “I Walked with a Zombie” propõe um encontro hipnótico entre cinema clássico e música contemporânea ao vivo, através de uma nova interpretação sonora criada pela banda portuguesa Club Makumba para o filme I Walked with a Zombie, obra incontornável do cinema fantástico realizada por Jacques Tourneur em 1943. Conhecidos pela sua linguagem instrumental livre, cinematográfica e profundamente evocativa, os Club Makumba desenvolvem neste projeto uma banda sonora original executada integralmente ao vivo, explorando atmosferas que atravessam o afro-beat, psicadelismo, jazz, ritmos tribais e paisagens sonoras experimentais. A
música não surge apenas como acompanhamento, mas como um novo corpo narrativo para o filme, ampliando a tensão poética e o universo onírico desta obra de culto. “I Walked with a Zombie” é um clássico singular do cinema de terror atmosférico, marcado pela sugestão, pelo exotismo caribenho e pela ambiguidade entre realidade e sobrenatural. A abordagem dos Club Makumba dialoga com essa dimensão sensorial e ritualística, criando uma experiência imersiva onde imagem e som se fundem numa performance única e irrepetível.
Club Makumba: Tó Trips (guitarra), João Doce (bateria), Gonçalo Prazeres (saxofone) e Gonçalo Leonardo (baixo e contrabaixo)
Os Club Makumba continuam a seduzir territórios por onde passam, numa viagem musical a quebrar barreiras pelos quatro cantos do globo. Com o segundo longa-duração Sulitânia Beat (2024), nomeado em diversas listas como um dos melhores discos de 2024, a banda passou por grandes festivais como o NOS ALIVE, FMM - Sines, Festival F, Festival Med, Bons Sons, e internacionalmente pelo Eurosonic (Países Baixos), Das Fest (Alemanha), Jazz Sous Les Pommiers (França), BIME (Bilbao - Espanha), entre outros.
SAMUEL ÚRIA – HISTÓRIA DE UM PROPRIETÁRIO RURAL, de Yasujiro Ozu – cine-concerto
17 de Outubro (21h45, Casa das Artes de Famalicão)
Uma mulher viúva é forçada a tomar conta de um rapaz órfão que aparece inesperadamente num bairro de Tóquio. Embora inicialmente relutante, com o passar do tempo, a mulher acaba por se afeiçoar ao rapaz. Um conto agridoce sobre o Japão do pós-guerra, onde a regeneração e a reconstrução são as prioridades, História de um Proprietário Rural retrata alguns dos temas mais caros de Ozu – famílias fragmentadas, a melancolia do quotidiano – através do seu célebre humor e da visão terna do mundo que caracteriza a sua obra. Samuel Úria apresentará em estreia uma nova banda sonora.
Título Original: Nagaya shinshiroku (Japão, ficção, 1947, 70 min)
Classificação: M/12
A tarefa de acompanhar o filme “História de Um Proprietário Rural” com instrumentais originais é o agregar de, pelo menos, três universos que há muito me cativam: Primeiro, fazer música e tocá-la ao vivo. Segundo, o cinema do Ozu. Terceiro, aceitar desafios que preconizam a expressão “areia a mais para a minha camioneta”. Parto para a concepção desta empreitada montada nas asas do paradoxo: há que respeitar a frugalidade incisiva, terna, melancólica e oriental do grande mestre japonês, mas há também que respeitar o convite feito a este músico, tão afoito a soluções alarves, desgrenhadas, titubeantes, ocidentais. Como não ferir a perfeição do Yasujiro Ozu se lhe prego a minha carga sonora? Nem a resposta é óbvia nem o equilíbrio é fácil. Não abri mão deste desafio (areia a mais para a minha camioneta) porque é impossível voltar costas a uma obra cinematográfica que tanto estimo. É precisamente isso que me dá esta garantia: também não abrirei mão do profundo respeito.
Samuel Úria – criação de banda sonora original e interpretação de todos os instrumentos
Nascido no decote da nação, entre o Caramulo e a Estrela, Samuel Úria leva para os palcos o blues do Delta do Dão. De lenda rural para lenda urbana, tudo está certo: meio homem meio gospel, mãos de fado e pés de roque enrole. Com uma proveniência marcada pelo punk, pelo rock’n’roll e pela estética low-fi, Samuel Úria tem ganho notoriedade desde 2008. Da sua discografia “oficial” em nome próprio, para além do trabalho publicado no final de 2024, “2000 A.D.”, constam quatro LP e dois EP.